Justificativa

Gradativamente transcendendo o grande circuito comercial da literatura de livrarias, a poesia contemporânea encontrou refúgio nas suas origens, na sua capacidade oral e sensorial. Talvez quando Allen Ginsberg, em São Francisco, em 1955, levantou-se de uma cadeira e leu (deu) seu UIVO pela primeira vez, a poesia tenha dado um passo decisivo rumo a uma reconciliação com o público em sua oralidade e sua vocação para a cena. Os beatniks por lá, por aqui a turma da poesia marginal, o grupo Nuvem Cigana nos anos 70 liderado pelo poeta Chacal (que ouviu Ginsberg dizer seu Uivo em Londres), depois a turma do CEP 20.000, e outros tantos liberando a poesia do papel. O Rio de Janeiro, com sua tradição do encontro, dos bares, das esquinas cheias, da abertura artística, receberia essa “novidade” que remontava há milênios com entusiasmo, sendo hoje um centro de pungência de manifestação poética no Brasil. Em apenas um dos diversos sites[1] e blogs inseridos no universo da poesia contemporânea na cidade do Rio de Janeiro existem mais de 34 encontros e eventos sugeridos nos quais a dinâmica da poesia é fundamentalmente oral, os Saraus, a poesia viva nas ruas e bares. Esse intenso movimento cultural revela que a poesia está tão viva como sempre, com uma produção contemporânea significativa de seu tempo. A intensa produção poética de autores deste tempo marca significativamente este espaço cultural e a percepção desta geração acerca da arte poética, suas perspectivas estéticas contemporâneas e sua capacidade de expressão de seu tempo.

Como o teatro desde sua origem dialogou com a poesia e a estrutura poética, justifica-se, nesse momento de expansão do fenômeno poético em sua forma oral, convidar novamente a poesia a subir aos palcos do teatro. Estas manifestações artísticas podem estar imbricadas, ampliando suas possibilidades de expressão e de percepção de linguagem, levando a um terceiro estágio de eclosão do fenômeno artístico que é maior do que a soma das partes individuais.

A motivação do projeto advém da experiência concreta de seu autor pelas veredas do teatro (como autor e ator) e pelas veredas da poesia (como escritor, poeta e participante ativo dos movimentos de poesia de rua no Rio de Janeiro). A experimentação da potência teatral da poesia oral dita nas ruas ressoaram forte na cabeça (e coração) do autor para que ele se propusesse a pesquisar durante alguns anos uma maneira de construir, de forma dramaturgicamente consistente, a aproximação das duas linguagens. É raro o poeta que também é ator profissional com recursos para combinar a liberdade, a pungência e profundidade da poesia oral com a dinâmica cênica teatral a serviço de uma dramaturgia.

O rigoroso processo de preparação do espetáculo esteve todo o tempo a serviço da proposta dramatúrgica. A preparação do elenco foi realizada pelo ator, diretor e poeta Eduardo Tornaghi, que hoje é um respeitado coach de atores e mantém uma oficina de interpretação permanente na qual orienta como encarar a poesia em cena. Eduardo Tornaghi, que faz uma participação no elenco da peça, trabalhou durante 2 meses diversas entradas de percepção para os atores abordarem a sensibilidade da poesia oral. A preparação corporal, sob responsabilidade da Coreógrafa e Bailarina Eliane Carvalho, utilizando-se de diversas técnicas específicas, buscou primeiramente uma desconstrução dos corpos em cena, a fim de deixar mais espaço ao movimento sensível das palavras no próprio corpo dos atores. Toda esta preparação ampliou as possibilidades de encenação exploradas pelo diretor e ator Rafael Sieg, da Companhia de Teatro Íntimo, que construiu uma coordenação afinada entre a proposta de encenação, a movimentação pelo cenário modular criado especialmente por Chica Batella e Joana Passi, e a trilha original, construída por Marcello Magdaleno a partir das improvisações na própria cena durante os ensaios, captando de perto a sensibilidade da dramaturgia.

O diferencial deste projeto repousa em três pilares: a atualidade de sua encenação, a raridade da temática e a singularidade da dramaturgia. A atualidade de sua encenação consiste na combinação de linguagens teatrais e poéticas. Os diálogo dos personagens inserem-se numa relação direta entre verso e prosa, que convida ainda o arcabouço poético, herança da poesia, a imiscuir-se nas situações da dramaturgia. Recursos de projeção ampliam ainda as camadas cênicas, construindo novos espaços de percepção do texto.

Quanto à raridade da temática, uma análise preliminar permite identificar poucos espetáculos teatrais nos últimos 10 anos que se propuseram a ter na linguagem poética contemporânea (excetuando-se recitais de autores clássicos) sua estrutura fundamental. Dentre esses, é possível destacar os espetáculos dos poetas (e também atores): Elisa Lucinda (Pare de falar mal da rotina, 2007), Viviane Mosé (Pensamento Chão, 2001) e Mano Melo (O lavrador de palavras, 2000). Todos eles tiveram boa receptividade de público (o espetáculo de Elisa Lucinda já superou 200.000 expectadores), foram valorizados em sua qualidade teatral, além de trazerem à baila do debate cultural a oralidade da poesia contemporânea, servindo ainda como meio de sua divulgação. Entretanto, não conseguimos identificar estreias relevantes nesse segmento de dramaturgia há alguns anos.

Quanto à singularidade de sua dramaturgia, destaca-se a construção de sua narrativa com base em uma história concreta, com personagens concretos, em situações de conflito dramatúrgico que justificam o falar da poesia em cena. Isso escapa ao esquema de compilação de textos, que muitas vezes pode distanciar o espectador em determinados momentos longamente recitativos, nos quais eventuais faltas de conexões do enredo possam se fazer sentir.

Outro viés de justificativa explorado neste projeto é seu caráter pedagógico. Sem qualquer pretensão formalista, nem exposições teóricas estritas, a possibilidade de ouvir poesia em cena num espetáculo teatral pode ampliar a capacidade relacional do expectador com a poesia. Através da sensação de apropriação do som da poesia, pode-se ampliar as possibilidades de vivência (não apenas entendimento) do encanto poético. Isso permite ao público imaginar e, eventualmente ousar, ampliar com sua fala o efeito da poesia no outro, tornando-se de certa forma coautor, não do texto, porém do efeito poético no outro. Concorre ainda para este propósito a concepção do workshop de poesia falada. Realizado antes da peça, no próprio palco onde se deu a temporada de estreia, o workshop gratuito propôs a uma empolgada turma diversos exercícios corporais e de interpretação baseados na oralidade poética. Os participantes ousaram novas formas de dizer e, consequentemente, sentir a poesia. Após assistir ao espetáculo, muitos participantes do workshop comentaram que depois da experiência que tiveram, assistiram ao espetáculo de outra maneira, perceberam mais sutilezas na linguagem e, consequentemente, aproveitaram mais os prazeres da sensibilidade poética e o espetáculo como um todo. De certo que trata-se de certa pretensão este tópico… Bem, trata-se sim de uma pretensão com a qual sonhamos, sem ilusões formais.

A temporada de estreia do espetáculo, no verão de 2013 no SESC Casa da Gávea, permitiu aos produtores do projeto e aos artistas envolvidos a percepção de que haviam criado algo a altura de seus sonhos. O teatro esteve cheio durante a temporada, o que motivou os diretores da Casa da Gávea a convidarem o projeto para uma segunda temporada no final de 2013. O salão de entrada da Casa da Gávea permanecia cheio após os espetáculos, quando muitos expectadores, de livros na mão, procuravam os atores e o diretor para comentar sua experiência com a peça. A repercussão se ampliava para longas noites nos bares dos arredores, em mesas que misturavam elenco, produção e expectadores. A 2a Temporada no SESC Tijuca em 2014 foi ainda mais animadora com lotação esgotada todos os dias!

Resumindo, os principais elementos de justificativa para realização deste projeto seriam:

  • a pungência do movimento poético contemporâneo baseado na oralidade;
  • a possibilidade de combinação de linguagens poéticas e teatrais para expressão artística ampliada;
  • a configuração de elenco e direção com forte circulação nos meios artísticos convocados (Teatro e Poesia);
  • a atualidade de sua encenação;
  • a raridade da temática;
  • a singularidade da dramaturgia e
  • um potencial pedagógico;

 

 

 

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