Pegadas

Roteiro de curta metragem em fase de captação de recursos

“PEGADAS”

Um roteiro

De

Thales Paradela

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FADE IN

CENA 01 – SALA DE TRABALHO DE GABRIEL INT/ DIA

Uma sala de trabalho pequena e ascética, sem janelas, muito limpa, poucos utensílios, mesa e cadeira.

GABRIEL, 30 anos, terno e gravatas antigos e desconjuntados, barba feita e cabelo mal cortado, suando muito, preocupado, tenta secar-se com lenços de papel. O relógio digital marca 10:54h. Segue secando-se com as mangas da camisa. Percebendo-as amareladas, recoloca o paletó, então sente mais calor. Decide tirar novamente o paletó, quando ouve o barulho da maçaneta. Recoloca rapidamente o paletó e senta-se em sua cadeira, fingindo fazer anotações. A maçaneta gira.

CHEFE, 45 anos, gordo, careca de pescoço curto, camisa social comprida e gravata sem paletó, entra com as mãos atrás do corpo, postura cordial e protocolar.

CHEFE

O novo funcionário? Bem vindo! Aqui, meu rapaz, terás a oportunidade de…

Gabriel luta para prestar atenção, mas seus pensamentos estão em outro lugar. O rosto do chefe foca e desfoca ante seu olhar. A voz do chefe some e apenas algumas palavras emergem. Gabriel ouve o som de passadas em terreno de areia, passadas em terreno de grama… Imagens desfocadas de passos se misturam com o rosto do chefe, que segue falando até terminar seu protocolar discurso de boas vindas.

CHEFE (cont.)

…e aí basta que me procures. Bem, não quero atrapalhar mais o teu dia. Qualquer coisa… esteja a vontade.

O chefe vai se retirando, andando sempre de costas, segue com as mãos atrás do corpo. Gabriel ameaça levantar-se para despedir-se mas desiste, continua sentado olhando o chefe sair. Respira aliviado quando a porta se fecha. Levanta-se e confere que não há ninguém atrás da porta. Senta-se aliviado.

MONTAGEM

  1. Gabriel organiza os lápis
  2. Gabriel amassa outra folha
  3. Gabriel limpa e alisa a mesa
  4. Gabriel confere a textura da parede (outras de passagem de tempo)
  5. Gabriel cochila na cadeira

Gabriel acorda assustado, olha o relógio digital que marca 22:03h. Levanta-se e abre a porta com cuidado, certificando-se que não há ninguém no corredor. Sai da sala com passos estranhos. Gabriel parece sempre “flutuar” ao andar. Não se percebe o movimento natural de alternância de peso em seu caminhar. Como se ele estivesse sempre numa esteira rolante.

FADE OUT

CENA 02 – CASA DE GABRIEL INT/ INÍCIO DO DIA

SOM de despertador

FADE IN

Vê-se o relógio digital marcar 6:30h.

INSERT. “Algumas horas antes…”

Gabriel desperta em seu pequeno quitinete no qual todos os cômodos são visíveis de todos os pontos. Maquinalmente se levanta e procura o terno no fundo de um armário com poucas roupas, veste-o. Acha uma gravata antiga no fundo de uma gaveta vazia. Posiciona-se a frente de um espelho na porta do armário para dar o nó na gravata. Atrapalha-se com o nó. Gabriel olha intrigado para seu rosto sem barba. A imagem se desdobra. Um Gabriel se mantém olhando curioso o rosto no espelho e outro vai maquinalmente se arrumando com o cinto, o paletó e finalmente termina o nó torto na gravata. O Gabriel do espelho observa o Gabriel que se arruma estranhando-o. O Gabriel que se arruma sai de casa, mas volta para pegar uma maçã. O Gabriel que observa se apressa “voltando ao corpo” do Gabriel que se arrumava antes deste sair pela porta. As imagens se fundem.

CENA 03 – EDIFÍCIO MODERNO DE ESCRITÓRIOS – INT./ DIA

Gabriel observa um grande hall. Pessoas passam apressadas. Ele segue um grupo de pessoas após um breve comprimento com a cabeça, deixa-se ficar ao final do grupo. Olha para trás de si e vê apenas o reflexo espelhado das luzes no chão, não há pegadas. Dá uma última corrida para não perder o elevador que fecha a porta após sua entrada.

CENA 04 RECEPÇÃO DA EMPRESA – INT./ DIA

Um posto de trabalho completo de uma secretária. Atrás da mesa um armário com arquivos de papel. Ao lado das cadeiras onde se aguarda atendimento há uma escova giratória para lustrar os sapatos.

A SECRETÁRIA, 30 anos, bonita, está de óculos escuros dentro do ambiente de trabalho. Ela confere o registro no computador.

SECRETÁRIA

Tem certeza? Poderia repetir, por favor?

GABRIEL

Passos, deveria estar aí. Eu preenchi direitinho ontem…

SECRETÁRIA

Ontem? Então ainda não deve estar no sistema. Deixa eu procurar aqui…

A secretária vai procurar o registro nas pastas suspensas que se encontram no grande móvel atrás de seu posto de trabalho.

Gabriel observa o ambiente e percebe a escova de sapatos. Caminha até a escova e a liga. Quando leva a perna na direção da escova para lustrar os sapatos, a escova toca apenas em suas calças. Ele percebe que está sem os pés!

SECRETÁRIA (cont.)

Ah, sim! Aqui está: Gabriel Passos. Queira me acompanhar, por favor.

Gabriel ainda sob efeito da descoberta, em dúvida, esconde a perna atrás de uma poltrona e fica paralisado sem saber o que fazer.

SECRETÁRIA (cont.)

Vou te mostrar sua nova sala.

Gabriel hesita. Um funcionário entra e cumprimenta a secretária. Gabriel fica ao lado dele e sincroniza os passos para andar, impedindo que se vejam seus pés.

 

CENA 05 – SALA DE TRABALHO DE GABRIEL – INT./ DIA

Vê-se o relógio digital da cena 01 marcando 9:12h. Gabriel examina o entorno. Ele senta-se rapidamente na sua cadeira e examina cuidadosamente a perna, procurando alguma explicação para os pés não estarem ali. Fica atônito. Pega um lenço de papel e passa na testa. Diversas ações fusionadas. Vê-se novamente o relógio marcar 10:54h. Toda ação da cena 01 se repete até girar a maçaneta.

CENA 06 – HALL DO EDIFÍCIO DE GABRIEL – INT./DIA

PORTEIRO, 60 anos, sotaque indistinto, em seu posto de trabalho com uma cadeira rasgada e uma escrivaninha antiga, encontra Gabriel pela primeira vez em muitos meses.

PORTEIRO

Ei, Seu Menino, Gabriel!! Mas que tempão o senhor não aparece. Eu tenho aqui um tanto assim de correspondência pro senhor…

GABRIEL

Outra hora, seu Jurandir… Outra hora!

Gabriel “desliza” rapidamente pela portaria e desaparece rumo ao elevador.

CENA 07 – CASA DE GABRIEL – INT./ FIM DE DIA ATÉ DE MANHÃ

Gabriel se locomove gatinhando, em quatro apoios, procurando os pés. Olha por baixo do sofá antigo, acha algo, estende a mão para apanhar, era uma garrafa de uísque pela metade, lança-a sobre o sofá. Segue buscando abaixo da cama, só acha um par de sandálias. Uma despensa com vários sapatos e objetos antigos, acha: o sapato que havia deixado para trabalhar no primeiro dia (limpo e engraxado), um par de chuteiras velhas, um único pé de um sapato vermelho… Pensa que pode ser uma pista, guarda consigo o tênis vermelho e segue procurando. Acha uma pantufa marrom da qual não gosta e o outro pé do tênis vermelho. Junta os dois pés do tênis vermelho e os joga no fundo da dispensa. Respira fundo sem saber o que fazer. Se lembra de algo importante e segue gatinhando rapidamente até a cama, ao lado da qual encontra-se seu mochilão ainda não desfeito. Abre o mochilão e despeja tudo no chão. Vê-se mapas, poucas roupas, uma mini-toalha, bússola, saco de dormir, canivete, lanterna e outros apetrechos de caminhada. Gabriel revira tudo e observa a mochila vazia. Para abruptamente.

GABRIEL (Em Off.)

As botas de caminhada! Eles estão com minhas botas de caminhada!!

Gabriel engatinha até o sofá e lança-se desolado. Serve-se do uísque no gargalo. Olha desolado pela janela com luz de fim de dia. Fundem-se imagens e sons de caminhada, como na cena 01. Sequência de planos da mudança da luz pela janela.

Toca o despertador e vê-se o relógio marcar 6:30h. Gabriel está na mesma posição na qual se lançara desolado na tarde anterior, não dormiu. Levanta-se maquinalmente e “desliza” para a porta, pegando antes o paletó e uma maçã.

CENA 08 – HALL DE ENTRADA DO EDIFÍCIO MODERNO – INT/ DIA

Gabriel novamente observa o piso brilhante e as pessoas que passam, colocando-se atrás de uma planta que ornamenta o hall. Há um balde com água, ao lado de um esfregão, perto de onde ele se encontra. Ao passar um grupo de pessoas ele enfia a mão no balde, molha bastante a mão, depois se mistura às pessoas para caminhar sem ser notado, ficando um pouco mais atrás. A cada “passo”, vai aspergindo um pouco de água pelo chão. Esperando o elevador ele olha para trás e vê um rastro de água que ele deixou a cada passo, sorri. Um faxineiro rapidamente vem secando o rastro. Fecha-se a porta do elevador.

CENA 09 – RECEPÇÃO E CORREDORES DO ESCRITÓRIO – INT./DIA

MONTAGEM

  1. Cumprimenta brevemente a secretária
  2. Desliza pelos corredores
  3. Entra em sua sala
  4. Aponta um lápis
  5. Faz colagens com as cascas do lápis apontado (outras de passagem de tempo)
  6. Afrouxa a gravata e se decide.
  7. Levanta e sai da sala
  8. Entra na sala do chefe

CENA 10 – SALA DE TRABALHO DO CHEFE – INT./DIA

Gabriel entra na sala do chefe. Há uma persiana que dá para o meio do escritório, onde pode-se ver o que ali se passa. Atrás da mesa, um móvel sobre o qual há livros, uma jarra com água e copos. O chefe está de costas quando ele entra. Segue acendendo um charuto de costas enquanto Gabriel fala.

GABRIEL

Perdão por tomar o tempo do senhor… é que eu… assim, estou com um problema, pessoal, mas estou certo que não vai influenciar em meu trabalho… só preciso de um tempo para eu me organizar… é, que eu… meus pés… bem, eu não sei onde estão meus pés e…

CHEFE

Calma, rapaz…Bebe uma água.

O chefe segura o charuto com a mão esquerda, então põe o charuto na boca para liberar a mão esquerda, com a qual serve um copo de água. Ele faz tudo com a mão esquerda. O Chefe então se vira e vê-se que não tem o braço direito, abaixo do cotovelo (nesta cena usa camisa social de manga curta).     Gabriel estica sua mão direita para pegar o copo e o chefe entrega com a mão esquerda. Gabriel percebe que o chefe não tem um braço e não tira os olhos daquele vazio. O chefe percebe o olhar de Gabriel, tira o charuto da boca, dá uma baforada.

CHEFE (cont.)

Está tudo bem! Queres perguntar sobre meu braço? Vamos, sei que estás curioso. Não doeu, eu digo, simplesmente acordei um dia e ele não estava lá.

O Chefe vai até a persiana e abre-a.

POV DE GABRIEL

Enquanto fala o chefe, Gabriel começa a olhar para fora e perceber detalhes das pessoas mutiladas: alguém sem boca, alguém sem dedos, alguém sem nariz…

 

CHEFE (O.S. Cont.)

Foi um pouco depois de eu começar a trabalhar aqui, ele sumiu, sumiram também uns pincéis, uma aquarela velha e umas telas inacabadas. Eu pintava naquela época, coisa da juventude, sem importância. Já estava mais que na hora de arrumar este emprego, tomar um rumo na vida. No início ainda fiquei preocupado, pensei que o braço voltaria. Nunca voltou, me acostumei. De vez em quando recebo um postal de lugares estranhos, com uma ilustração abstrata, mas nunca tem endereço, de forma que nunca respondi, ou tentei qualquer contato. A gente acostuma.

VOLTA A CENA

GABRIEL

Quer dizer que talvez os meus pés…

CHEFE

Esqui? Você gostava de esquiar?

GABRIEL

Caminhar. Eu estava há um ano caminhando, mas aí achei que era hora de parar, fazer algo de concreto na vida. Um emprego, afinal, este emprego.

CHEFE

Sábia decisão, todos temos nossa hora de parar. Não é possível ter ventos nos cabelos por toda a vida. É justamente quando ainda se tem cabelo que é preciso pensar em quando não mais os tiver…

A porta se abre e entra um funcionário, ALEX, 50 ANOS, perfil atlético, gravata e camisa de manga curta, com uma

pasta na mão direita, não tem o braço esquerdo. Gabriel imediatamente percebe e não tira os olhos de seu braço.

ALEX

Desculpa, chefe, só preciso da assinatura do senhor nessas guias que conversamos…

O chefe pega as guias e comenta enquanto verifica e assina.

CHEFE

O do Alex foi o esquerdo, era tenista… canhoto, evidentemente. Tremendo Backhand, hein, Alex?

ALEX

Nem tanto, chefe, nem tanto… Mas isso foi há muito tempo, uma bobagem. Eu era muito imaturo mesmo, passava horas treinando, jogando com a turma… Enfim, a vida precisa andar, arrumei este emprego e hoje estou bem melhor.

Alex sai.

CHEFE

Portanto, meu jovem, com o tempo vais te acostumar…

Enche novamente o copo de Gabriel que bebe em goles rápidos.

INSERT cena de Gabriel barbudo tomando água numa cachoeira com as mãos, cena rápida e fundida com seu ponto de vista na saída da sala.

CENA 10 – CORREDORES DA FIRMA – INT./DIA

Gabriel desliza rumo a recepção para ir embora. Preocupado, evita olhar as pessoas. Quando levanta a cabeça vê alguém sem cabeça arrumando tranquilamente um arquivo. Esta pessoa o cumprimenta. Ele acelera para a recepção

CENA 11 – RECEPÇÃO DA FIRMA – INT./DIA

Gabriel passa pela recepção vazia e segue para a porta. Tenta abrir mas está trancada. Se volta para a mesa da secretária que está vazia e percebe apenas os óculos escuros sobre a mesa. A secretária então chega, ela não tem o olho direito. Ao perceber que Gabriel quer sair pega a chave e abre a porta.

GABRIEL

A senhora gostava de fotografias?

SECRETÁRIA

Muito… como você sabe? Ah, mas faz muito tempo, eu era muito novinha, foi antes mesmo de eu vir trabalhar aqui e…

Gabriel sai “flutuando” rapidamente sem deixa-la terminar a frase. Ela observa e põe os óculos escuros.

CENA 12 – CASA DE GABRIEL – INT. / DIA

Gabriel chega em casa e engatinha rapidamente para o ponto onde tinha esvaziado a mochila. Pega o mapa. Vê-se uma longa linha vermelha traçada no mapa que é o percurso de Gabriel, interrompido em um ponto. Enquanto ele passa o dedo pela linha, vê-se breves lembranças fundidas com a cena da procura no mapa.

SOM de passos.

MONTAGEM

  1. Igrejas, campanários
  2. Pontes
  3. Levantando-se de um banco onde dormira, vê-se Gabriel com uma grande barba e cabelos mais cheios
  4. Cachorros vadios que o seguem…

VOLTA A CENA

Gabriel segue analisando o mapa.

GABRIEL (em OFF.)

Foi aqui! Aqui que eu parei pra pegar o trem pra voltar para a cidade, eles não devem ter embarcado… Seguindo sempre pro Oeste… já tem 3 dias…preciso de mais um dia até chegar lá…então…quatro dias de frente, mais ou menos 100 kilômetros… aqui, por aqui. Venho até aqui e espero…

Vê-se Gabriel com calça de caminhada andando rapidamente pela casa, recolhendo coisas, com pressas. Ele olha a mochila e decide colocar tudo de volta. Pega a mochila. Sai.

CENA 13 – UMA PEDRA NO MEIO DO CAMINHO – EXT./DIA AMANHECENDO

Gabriel está sentado em uma pedra à margem do caminho de terra batido, esperando os pés. Há uma bica por perto, ou um lago, algo que sugira ponto de repouso. Os pés chegam sozinhos, lentamente. Param para descansar calcanhares no chão, sola na vertical. Gabriel espera um tempo, depois começa a conversa com muito tato, para não “assustar” os pés.

GABRIEL

Bom ritmo da caminhada dos últimos dias… aliás, concordo que o trecho pelas montanhas seja mais interessante.

Os pés moveram-se lentamente para fora e para dentro, voltaram-se para posição de descanso.

GABRIEL

Os próximos quilômetros são de subida, dizem que está escorregadio.

Desta vez os pés nem se moveram.

GABRIEL

Choveu demais, está muito perigoso, aliás, tudo isso está muito perigoso e cansativo, mas não se preocupe, vamos voltar para casa…

Os pés se viraram, plantas no solo, lentamente se puseram a andar.

GABRIEL

Calma, onde você vai? Vocês não têm esse direito… quem vocês pensam que são?

Os pés fizeram uma breve pausa, depois retomaram a marcha mais acelerada.

GABRIEL

Desculpa, não foi isso que eu…

Gabriel flutuou e pôs-se ao lado dos pés que caminhavam, tentava manter o ritmo.

GABRIEL

Eu quis dizer que a gente ainda tem uma história juntos, a gente sempre se deu tão bem! Pensei um pouco em nós, juntos, quantas aventuras vivemos, uma história linda, intensa… então, você quer abandonar tudo isso por um capricho? não é justo isso, não nessa hora, em que realmente eu preciso que vocês compreendam o meu momento, o timming da minha vida. Foi tudo muito bonito, eu sei e sempre vou guardar isso no meu coração, mas é que, sabe, não é com vocês, sou eu… eu preciso deste tempo para mim. Eu preciso me reinventar, amadurecer, ter um emprego, afinal. E eu conto com vocês, somos mais que um time, é como se fôssemos um único corpo, eu e vocês, juntos, por muito mais tempo… e depois, não é tão ruim assim, vocês vão se cansar menos, menos bolhas, menos cortes, menos terra incomodando a pisada… tapetes, pense nos tapetes felpudos…!

Os pés enfim pararam. O esquerdo ficou imóvel, mas o direito subia e descia a ponta, batendo ritmado no chão, parecia ansioso.

GABRIEL

Muito bem, eu sabia que vocês iam entender. Vamos embora, está tudo bem! Não precisam se preocupar, estaremos sempre juntos.

Gabriel foi se aproximando devagar, estendeu a perna esquerda no ar, em direção ao pé esquerdo, aproximando, tentou calçar seus pés e… os pés correram, ele caiu desequilibrado, os pés correram.

GABRIEL

Olha só, eu estou sendo paciente, agora acabou! Acabou, entendeu? voltem aqui agora!

Os pés correram mais depressa, Gabriel resolveu flutuar o mais rápido que podia atrás dos pés.

GABRIEL

Eu prometo que trabalho de tênis… o que vocês pensam da vida, hem? Onde vocês pensam que vão?

Há um marco na estrada, o nome de um local escrito: “FINISTERRE”. Abaixo uma distância: 1428KM. Os pés circulam o marco e param. Gabriel também para e fica olhando seus pés. Evita qualquer movimento intempestivo que os fizessem correr novamente.

 

GABRIEL

É sério? Mas isso é muito longe!

Os pés começam a andar, lentamente dessa vez. Gabriel flutua calado, ao lado de seus pés por um tempo. Gabriel, cansado, senta-se em uma outra pedra. Seus pés continuam uns metros, param, voltam e ficam a seu lado, silêncio, suspiros de Gabriel, pés chutam umas pedrinhas. Os pés se aproximam, devagar e… calçam Gabriel. Assustado, levanta-se para testar. Ergue a perna direita e o pé direito vai até a altura de seu joelho esquerdo, chuta com a perna esquerda e viu a ponta de seu pé esquerdo na altura de seu quadril. Pousa os pés nos chão, e sente novamente o contato com o solo. Respira fundo e… os pés começam a andar primeiro e o corpo acompanha.

GABRIEL

Vocês tem certeza? Mas isso fica no fim do mundo!

Então os pés começam a correr, Gabriel Passos sente o vento no rosto, o vento do fim do mundo. Ainda olha para trás, há pegadas.

 

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